Minha vida: depressão aos 18!

Eu já cansei de ouvir expressões do tipo “Depressão não existe!” “Isso é coisa da cabeça de fulano” “Ah, isso tudo é drama”, e até um certo momento da minha vida eu acreditei nisso. Eu ficava imaginando o que passava na cabeça de uma pessoa deprimida e não conseguia entender o por quê daquilo tudo. Na minha família existem casos assim, minha tia, por exemplo, toma anti-depressivo, só dorme à base de remédio etc, e eu nunca consegui acreditar que era algo real, até que eu tive minha própria experiência.

Aos 18 anos eu entrei pra faculdade, eu sai do Ensino Médio achando que ia chegar na faculdade e entrar em um outro universo, sabe?! Pensei que seria igual em filmes, pessoas empenhadas em estudar, armários legais pelo corredor, lanchonete gigante cheia de opções, professores incríveis e amigos de verdade. Foi um choque! Eu sempre fui muito tímida, daquelas que treme só do professor falar o nome na hora da chamada. No primeiro dia de aula, uma moça se dirigiu a mim, eu fiquei muuuuito feliz, mas ela só queria saber onde era o banheiro. Mesmo assim eu continuei sorrindo pra todo mundo que passava e tentando ser simpática. Algumas semanas depois eu notei que a sala já estava toda enturmada e eu tinha passado a sentar na primeira mesa próxima a porta, sozinha. Na hora de separar a turma em grupos para trabalho, eu sempre era aquela que a professora precisava encaixar em algum grupo, ou fazia sozinha. A maioria das pessoas me chamavam pra fazer trabalho simplesmente porque eu fazia tudo, eu achava que fazendo tudo, as pessoas gostariam de mim.

Eu não vou dizer que a faculdade foi o pior momento da minha vida, mas foi onde todas as minhas crises e feridas reprimidas vieram à tona. Eu tinha um sério problema com rapazes (detalhes em outro post), eu não gostava dessa coisa de ficar, eu tinha tanto medo de beijo, eu fugia! E graças a isso, as pessoas começaram a achar que eu era lésbica, no começo eu não me importava, porque eu sei o que eu sou, mas com o tempo isso foi ficando muito chato. Os colegas de turma começaram a bolar situações pra me colocar sozinha com outra garota, na expectativa que eu fosse me assumir, e eu ficava muito constrangida e triste. As pessoas passaram de chatas pra insuportáveis, eu era motivo de cochicho nos corredores e recebia diversos e-mails anônimos dizendo “sai do armário”, era terrível. Aí um dia eu decidi trocar de turno, fiquei toda empolgada imaginando que a turma me aceitaria e que eu poderia começar do zero e tentar ser diferente. Quando eu cheguei na sala nova, abri a porta e POW! O grupo que mais me perturbava havia se transferido para noite também… cheguei em casa chorando. Como eu queria recomeçar e assumir o meu estilo como pessoa, eu fui de vestido, maquiada, com material novo. E graças a isso eles ficaram tirando sarro de mim.

Na segunda semana de aula, meu ônibus quebrou, a essa altura eu estava desesperada, ia pra faculdade com a pressão baixa, suando frio, com um nó na garganta e eu tinha uma dificuldade imensa de levantar da cama, passava o dia deitada chorando. No dia que o ônibus quebrou, eu pedi o motorista para abrir a porta e caminhei até minha casa, refletindo e decidida que nunca mais pisaria naquela faculdade. Quando cheguei em casa meus pais estavam no portão, de longe já comecei a chorar, eles me abraçaram e perguntaram o que estava acontecendo, então eu contei tudo que vinha passando há mais de dois semestres. Então abandonei a faculdade.

Meus dias se tornaram insuportáveis, eu não queria comer, de 55kg passei para 45kg em um mês, sem exagero. Todas as minhas roupas ficaram enormes! Eu não tinha ânimo para nada, viciei em jogos e nem em redes sociais eu costumava entrar pra evitar conversas. Aos poucos me afastei da família e dos amigos, foi aí que eu comecei a perder o controle total. Um dia acordei nos braços do meu irmão, desesperado, eu levantei da cama e tentei me jogar de cabeça no chão, só que eu não lembrava disso. Fiquei completamente perdida e sem entender o que estava acontecendo. Eu já tinha medo de palhaço, mas comecei a ter fobia, era desesperador, só de falar PALHAÇO perto de mim, eu passava mal, a ponto de ir parar no hospital. Tomei raiva de algumas pessoas, raiva de desejar a morte, e meu humor era muito instável. Quando eu estava muito feliz, podia se preparar para me ver muito triste no fim do dia, e essas mudanças ficavam cada vez mais frequentes. Até que decidiram me levar ao médico, ele me encaminhou para um psicólogo. No começo eu achava o tratamento uma perca de tempo, um absurdo total “Eu sã desse jeito, indo em médico de cabeça, pruft”, mas aí o psicólogo decidiu que ele não daria conta, eu precisava de um psiquiatra e um psicanalista. Foi aí que percebi que a coisa era séria.

Logo na primeira consulta fui diagnosticada como depressiva, e precisava fazer algumas avaliações para saber o motivo das minhas mudanças de humor, e lá estava eu, com distúrbio bipolar. Eu entrei em negação. É meio difícil acreditar que você de repente não tem controle de você, é algo totalmente abstrato. Comecei a tomar um remédio para ficar calma, um para não me deixar eufórica, um para não me deixar triste demais, um para dormir e um para controlar minhas mudanças de humor. Cada remédio vinha acompanhado de uma crise de choro, eu sentia tanta vergonha por ser dependente de remédios…

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