Aqueles cheirinhos…

A minha vida inteira eu tento associar pessoas a alguma coisa, para conseguir me lembrar depois. Tenho aquele problema de lembrar nomes, sabe?! Então eu faço o seguinte: Renata… já sei, aquela menina que todos os dias levava aquele salgadinho com cheiro de chulé pra sala. Catarina… aquele tia que todos os dias ficava horas no tanque de lavar roupa passando fumo nos dentes. Débora… aquela prima que era minha amiga na infância e eu induzia (pra não falar que obrigava) a tomar água com sabão pra lavar o estômago.

Sim, nem sempre as associações são boas, mas tem um tipo de associação que eu só percebi esses dias. Eu estava passando pelo corredor com produtos de limpeza em um supermercado, e eu senti aquele cheirinho de pinho sol. Eu fechei os olhos e suspirei fundo, foi como me teletransportar pra casa que minha avó morava quando eu tinha uns cinco anos. Eu lembrei do banheiro que ela lavava todos os dias, e por fim jogava uma tampinha do produto. Eu amava aquele cheiro. E eu lembrei dela, bateu uma saudade. Isso não aconteceu só uma vez… peguei o ônibus e como de costume coloquei uma música e comecei a ler, de repente eu pude sentir minha mãe do meu lado. Rapidamente tirei o fone e olhei para o lado. Era o perfume dela, aquele cheirinho de Acordes é inconfundível pra mim. Achei que era só ela que tinha esse perfume. Engano meu.

Comecei então a reparar bem nos cheiros e cheguei a conclusão que naturalmente eu lembro melhor de cheiros do que de situações. Eu consigo lembrar do cheiro de chuva que fazia todos meus primos e eu corrermos para o quintal a fim de escorregar na lama que se formava. Lembro do cheiro de naftalina do guarda roupas da vovó. Lembro do cheiro de alma de flores que o vovô usava apenas em ocasiões especiais. É impossível esquecer o cheiro de Malbec do meu pai(drasto). Mas o melhor de tooodos os cheiros para mim, é o cheirinho de casa. Eu chego da rua e sento no sofá, todos os dias, então eu suspiro bem fundo e sinto aquela mistura de perfumes, sinto o cheiro de roupa limpa do quarto da mamãe que se mistura ao cheiro de “homem” (eu apelidei o cheiro do quarto do meu irmão assim, porque sinceramente não existe uma definição pra esse cheiro) do quarto do irmão, com cheiro de desinfetante que foi passado na cozinha, e o cheiro quase neutro do meu quarto. Cheiro de livro também é muito bom, só eu tenho mania de cheiras as histórias?

O que eu mais gosto nessa memória automática é a surpresa que ela me faz cada vez que sinto um cheiro novo e na verdade lembro de alguém. Outro dia eu associei o cheiro de cachorro molhado à uma tia que eu não vejo desde os 5 anos de idade, quando falei com minha mãe ela riu e confirmou que essa tia ficava sempre com esse cheiro, porque ela tinha muitos cachorros e todo dia dava banho em um. E o cheirinho de arroz doce? Lembro tanto de pessoas como de momentos, esse era meu doce preferido, então sempre que chegava na casa da outra vó, ela fazia pra mim. As vezes quando eu tava triste também me davam. Até hoje eu associo tristeza à arroz doce, esquisito até.

Infelizmente os cheiros não nos trazem apenas lembranças boas… sabe o cheiro daquela bala delícia? Lembro do meu tio que sempre me dava uma daquela, ele morreu com um pacotinho delas no bolso.

Quem dera controlar meu olfato para gravar apenas os cheiros agradáveis, quem me dera ter memória seletiva. Quem me dera lembrar de todos os cheiros… quem me dera lembra daquele cheiro. É, o seu cheiro que me faz falta… acho que já não lembro dele.

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